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Eu morava no nono andar de um edifício e tinha um canto preferido no apartamento - uma sala toda envidraçada onde meus pais colocaram nosso aparelho de som. A sala tinha um desnível em relação ao resto do imóvel. Chegava-se a ela por uma escadinha de três degraus. No mais baixo deles, eu colocava minha máquina de escrever Olivetti Lettera e ficava, sentada no chão, datilografando meus trabalhos de escola, as cartas que escrevia para o Programa do Zuza, minhas críticas musicais e literárias, minhas análises de futebol e Fórmula 1. Aquela sala foi, por assim dizer, minha primeira redação.
Não por acaso, sentava ao lado do aparelho de som e, enquanto escrevia, pilotava a música ambiente. Às vezes, as costas doíam, uma das pernas "dormia" e eu me levantava, para esticar o corpo. Quase sempre, sentava um pouco no sofá, no lado direito da sala, e ficava olhando pela janela, que dava vista para a Serra da Cantareira. É impossível lembrar dessas cenas e não associá-las à música de Milton Nascimento.
Talvez - e mais obviamente - porque eu escutava muito Milton naqueles tempos. Eu já era admiradora do falso-mineiro quando conheci meu grande amigo Gê Tock, em 1987. Ele, admirador e profundo conhecedor da obra do compositor, acabou me influenciando muito a aprofundar o gosto por Milton. Mas, talvez, eu também associe aquelas imagens à música dele pela visão que sugeria. Ao descansar os olhos na paisagem urbana limítrofe com a serra, eu inconscientemente me transportava para Minas e suas montanhas. Aquela visão da montanha paulista era a minha Minas Gerais.
Os dois álbuns "Clube da Esquina" eram dos mais tocados naquele cenário. Em LPs, naturalmente. De cara, a música de Milton Nascimento e Lô Borges, em parcerias diversas, sempre me sugeriu aquela melancolia característica de sua obra. E esse talvez fosse um fator adicional para eu ouvi-la tanto. Com 16, 17 anos, auge da adolesência e da montanha-russa emocional, sempre convém um pouco de melancolia.

Nesse período, não me limitei aos dois Clubes. Ouvia muito, também, os LPs "Caçador de Mim", "Anima", também um disco ao vivo, gravado por Milton no Palácio das Convenções do Anhembi, em 1983, "Encontros e Despedidas" e o menos brilhante "Yauaretê". Os dois Clubes, no entanto, sempre sobressaíram para mim como obras fundamentais.
A começar pelo conceito de criação coletiva, expresso tanto na enorme variedade de parcerias quanto nas próprias fotos do encarte, mostrando estúdios cheios de gente, músicos, mulheres, crianças, uma atmosfera hipponga totalmente anos 70. Aquilo não era só um disco - ou dois, pois os dois Clubes são álbuns duplos. Aquilo era o documento de uma época.
Outra sensação muito forte que sempre me marcou foi a mistura de elementos e influências. Música sacra, música cigana, rock, com inegáveis toques de Beatles, música latino-americana e até samba. Como definir a música do Clube? Era tudo isso, amalgamado em uma obra muito própria, personalíssima.
Já li algumas versões sobre a mesma confusão causada pelo termo "Clube da Esquina". Consta que um músico norte-americano desembarcou em Belo Horizonte e pediu para ser levado para a esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, em busca do mítico clube, que nunca existiu como tal, sendo apenas uma expressão que designava um grupo de amigos. (A saber, Milton e a filharada da família Borges, tendo Lô como caçula). Já li que esse músico seria o saxofonista Wayne Shorter e também o tecladista Lyle Mays. Seja quem for, o clube, como tal, nunca existiu.
A EMI lançou recentemente uma caixa com os dois CDs remasterizados, em trabalho capitaneado pelo produtor João Marcello Bôscoli. Um encarte detalhado traz as letras e muitas das fotos das gravações originais, inclusive uma na qual se vê Elis Regina ao lado de Milton e do guitarrista Natan Marques, que tocou por muitos anos na banda da cantora. Elis participou do Clube da Esquina nº 2, cantando com Milton "O que foi feito devera/O que foi feito de Vera", um magnífico duelo vocal entre duas das maiores vozes da MPB em todos os tempos.
Ouvindo os novos CDs remasterizados, algumas idéias novas se somaram às percepções cultivadas desde o tempo da sala envidraçada. São 44 músicas no pacote. Acredite se quiser: você não vai ouvir as versões de "Clube da Esquina" 1 ou 2 em nenhum dos CDs. A música Clube da Esquina, a primeira, não está gravada em nenhum desses álbuns, mas em um disco solo de Milton, anterior a ambos. A música Clube da Esquina nº 2 está no álbum Clube da Esquina, o primeiro, mas em versão vocalise, sem a letra!
Mas é provável que a percepção mais forte, advinda desse relançamento, tenha sido o caráter político dessa obra, que nunca me foi tão evidente. Menos visado pela censura que nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, Milton não deixou de dar suas alfinetadas no sistema, e passou ileso, talvez pela sutiliza de suas colocações. Além de cantar a plenos pulmões o desejo de uma América Latina forte e unida, Milton dá voz a frases como: "outros outubros virão", de "O que foi feito devera", que pode muito bem ser ouvida como uma referência à Revolução Socialista de 12 de outubro de 1917; ou ainda "já foi lançada uma estrela, pra quem souber enxergar, pra quem quiser alcançar, e andar abraçado nela", de "Cancion por la unidad latino-americana", de Pablo Milanés, adaptada por Chico Buarque, que divide os vocais com Milton. Não deve ser referência à estrela do PT, mas a da bandeira de Cuba, à da boina do Che. De qualquer forma, ninguém na Censura percebeu, ou entendeu a referência.